Crônica · Escritos de Yayá

A manta do bingo

Diante da máxima irrefutável de que devemos nos permitir novas experiências.

Por Tatiana Rocha — Mameto Nganga Musekedi

Diante da máxima irrefutável que devemos nos permitir a novas experiências, participei de um bingo.

Não saí de casa pensando que iria disputar uma manta de lã, toda no crochê (realmente fabulosa) e um conjunto de malas para viagem. Não tá nem frio e eu já tenho malas e mochilas demais. Não preciso de nada daquilo. Mas eu joguei por essas coisas.

Acompanhei, concentradíssima, os números cantados, naquela cerimônia toda de bingo. "Dois patinhos na lagoa! Isso mesmo! Vinte e dois! Dois patinhos na lagoa! Marquem em suas cartelas! Não se esqueçam que essa jogada tem premiação de quina. Mas não vale na diagonal, só vale se for em coluna ou deitada! Na quina, ganha um vinho! Mas a rodada é de cartela cheia! E o prêmio é a manta de crochê!"

Fiquei louca pela manta de crochê. Comprei logo duas cartelas. Uma era três, a outra era cinco. Mais negócio comprar logo duas, sai mais barato e aumenta as chances de ganhar.

E os números vinham rápidos. Tem que ficar atenta porque é tudo muito ligeiro. "Dois patinhos na lagoa! E agora, a idade de Cristo!" Nessa hora você dá aquela balançada porque tem que pensar. Quanto é mesmo? "Trinta e três! A idade de Cristo!"

Quando você acha a idade de Cristo naquela meleca de cartela é um alívio, porque aquela cartela não tem uma sequência, um número aparecendo depois do outro, na ordem crescente. Não, não é assim. É pra ajudar mesmo a evitar o Alzheimer, para estimular seu cérebro.

Quando você acha na cartela e risca, já foi cantada uma outra bola. Agora é o número do Jacaré. Porra, penso eu, puta da vida, sacanagem, eu lá vou saber qual é o número do jacaré no jogo do bicho? "Setenta e cinco! Deu jacaré, deu setenta e cinco!"

Mas peraí. No jogo do bicho não tem tanto bicho assim, pra chegar no setenta e cinco! Esse número não deve ser do jacaré! Nem acabo de raciocinar quando já tá a outra do meu lado, dando pulinhos de alegria porque está faltando duas, eu disse DUAS marquinhas na cartela pra ganhar a manta divina toda crochetada à mão naquelas cores bem vivas, tipo coisa da Bolívia, ou talvez uma manta Frida Kahlo, super maravilhosa, toda impregnada de trabalho social e consciência da importância da arte e da valoração do subjetivo das relações educacionais.

Ou seja, uma manta linda com conteúdo subjetivo, minha mais nova necessidade básica, que seria impossível eu ser feliz sem ser a proprietária daquela manta ganhada no bingo.

E minha cartela com cinco faltando. E a outra só com duas. Tenso o negócio. E aquela enxurrada de número, eu procurando número fora de ordem em DUAS cartelas, porque eu fui gananciosa e agora tinha que ficar catando número em DUAS cartelas fora da ordem!

Eu disputando com a moça do lado, pedra a pedra, eu acompanhando o jogo dela, ela de olho no meu, eu estava conseguindo avançar, já estava faltando só dois números, ela lá, por um, aquela tensão danada, o número dito, chega a dar aquele frio na barriga — e a danada da outra mulher, lá do outro lado do salão, que já tinha ganhado a boneca numa disputa de quina, grita BINGO!

Aí a coisa explodiu! Foi aquela reclamação generalizada, que é marmelada, que isso não é possível, como uma pessoa ganha dois prêmios no mesmo bingo, uma gritaria do caramba, e eu pensando com meus botões: Bingo é muito estressante. Não tenho nervos pra isso.

PS: Maravilhosa a manta.

Tatiana Rocha
Uma tarde de bingo

© Texto autoral de Tatiana Rocha. Reprodução não autorizada.

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