Trajetória pessoal

Minha trajetória com o Tarô

Mais de quarenta anos de relação com um baralho que começou como dom e virou disciplina.

Por Tatiana Rocha — Mameto Nganga Musekedi

Comecei a jogar Tarô quando eu era muito menina ainda. Foi durante minha explosão mediúnica: uma das coisas que aconteciam comigo com muita facilidade era pegar as cartas de um baralho comum e fazer leituras. Vinha fácil, sem esforço, como se já soubesse.

O susto

Quando o dom parou de bastar

Quando esse processo mediúnico se estabilizou, achei que conseguiria continuar fazendo as leituras do mesmo jeito. Não aconteceu. Foi bastante estranho pra mim, porque entendi ali que eu precisava estudar. O que me interessou, naquela época, foi o Tarô.

Sou autodidata. Comecei a estudar Tarô no começo dos anos oitenta, e durante todo esse tempo ele me serve como grande companheiro, um orientador. Já perdi as contas de quantas leituras fiz, das pessoas, nesse tempo todo.

O paralelo

Minha mãe e o baralho cigano

Paralelamente, naquela época, minha mãe jogava um baralho cigano de tradição brasileira, e eu jogava o Tarô. No começo eu ainda não trabalhava profissionalmente com ele. Ele me servia pra me ajudar, me orientar.

A lição

Tarô não pode ser muleta

Me perdi muito tempo. Entendi que a gente não pode ficar utilizando o Tarô o tempo inteiro pra pequenas soluções ou pequenas resoluções na vida. Entendi que Tarô não pode ser muleta. Ele é um instrumento que nos ajuda, mas eu não posso basear minhas decisões somente nisso.

Isso foi um processo de aprendizado muito louco.

Hoje, com 59 anos, interpreto o Tarô bem diferente de quando eu tinha 18. Quarenta anos atrás eu era outra pessoa, o mundo era outro. E a gente tem que entender isso também: estamos num momento de grandes transformações sociais, e nossa leitura precisa se adaptar ao nosso tempo.

Hoje, minha leitura do Tarô não busca entregar respostas prontas ou substituir a escolha de quem consulta. O Tarô é uma linguagem simbólica que ajuda a revelar movimentos, possibilidades, conflitos e caminhos que muitas vezes ainda não conseguimos perceber com clareza. Cada leitura é um encontro entre as cartas, a história da pessoa e o momento que ela está vivendo.

O que carrego disso hoje

Mais de quatro décadas depois daquelas primeiras cartas na mão de uma menina, o Tarô continua comigo, mas atravessado por tudo o que aprendi no caminho: que ele orienta, não decide por você; que ler é também uma forma de escutar o tempo em que se vive; e que toda leitura carrega, além do baralho, a pessoa que está do outro lado dele.

É esse Tarô, lapidado por décadas de estudo e de vida, que ofereço hoje nas consultas.

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