Espiritualidade e saberes ancestrais

Pombagira: o que ela representa e os mitos que precisam acabar

Ela não cuida só do seu amor. E a Maria Padilha que você ouviu falar pode não ser a mesma que está com você.

Por Tatiana Rocha — Mameto Nganga Musekedi

Poucas figuras da espiritualidade brasileira carregam tanto preconceito e tanta desinformação quanto a Pombagira. Fala-se muito, sabe-se pouco. E o pouco que circula por aí, na maioria das vezes, empobrece uma força que é, na verdade, imensa.

Trabalho com Pombagira há mais de quatro décadas. Não como quem leu a respeito, mas como quem foi formada dentro da tradição, viveu, incorporou, acompanhou consulentes que chegaram cheios de medo e saíram entendendo. Este texto existe para desfazer os mitos mais comuns que ainda envenenam essa relação.

Pombagira não é o que a internet decidiu que ela é. É o que a tradição sempre soube que ela é.

Mito nº1

"Pombagira só cuida de amor e relacionamento"

Esse é talvez o mito mais repetido, e um dos que mais limita o que as pessoas buscam quando procuram uma consulta. Reduzir Pombagira ao território amoroso é encolher uma força que atua em praticamente todas as dimensões da vida.

Pombagira trabalha cura. Trabalha defesa. Trabalha prosperidade. Ela enxerga o que está por trás de uma situação, seja ela afetiva, financeira, profissional ou espiritual, e aponta o que precisa ser encarado. Chamá-la só para "assuntos do coração" é desperdiçar boa parte do que ela pode oferecer.

Mito nº2

"Toda Maria Padilha é a mesma entidade"

Esse mito é mais sutil, mas igualmente importante. Existem vários nomes que se repetem no mundo da Pombagira: Maria Padilha, Maria Mulambo, Cigana, entre outros. Esses nomes funcionam quase como uma linhagem, um título que reúne certas características gerais. Mas não são uma única entidade falando por várias bocas.

Cada Maria Padilha, cada Cigana, é um espírito individual, com sua própria história, seu próprio jeito, sua própria relação com quem ela acompanha. O nome é compartilhado. A entidade, não. Por isso, histórias que circulam na internet sobre "quem foi" determinada Pombagira costumam contar a trajetória de uma única entidade daquele nome, e não fazem sentido universal, porque existem muitas outras com o mesmo nome e uma história completamente diferente.

Mito nº3

"Pombagira é uma entidade má"

Esse é o mito mais antigo e o mais responsável pelo medo que ainda afasta muita gente de uma ajuda que poderia transformar sua vida. Pombagira não é boa nem má. Como qualquer força espiritual de peso, ela é direta, e o incômodo que às vezes causa vem justamente da verdade que ela traz, não de maldade.

O preconceito em torno da figura feminina, sexualizada, livre, que não pede licença, tem raiz mais social do que espiritual. É mais fácil demonizar o que incomoda do que entender o que ele representa.

Madalena, e os dezoito anos que não me esqueço

Tenho 59 anos. Conheci a Pombagira Madalena, da linha das Ciganas, quando tinha 18. Ela me acompanha desde então, poderosa e maravilhosa como no primeiro dia.

Naquela época eu era muito menina, e no primeiro terreiro do qual fiz parte, em Salvador, meu trabalho não recebia muita atenção, talvez justamente por eu ser tão nova. Um dia, incorporada, Madalena olhou para um homem que pedia ajuda e disse, sem meias palavras, que tudo o que estava acontecendo com ele era consequência das próprias escolhas e dos próprios erros. Que ali não havia ajuda a dar.

Depois eu soube que esse homem estava sendo acusado de um roubo numa empresa. E que ele realmente tinha roubado.

Aquilo me atravessou. Eu era muito jovem, e quando se é muito jovem, a gente precisa de validação, precisa acreditar no que está vendo. E o que eu vi ali não deixava dúvida: aquela entidade enxergava o que ninguém mais tinha coragem de dizer. Madalena é assim até hoje comigo, muito protetora, muito direta, sem espaço para ilusão.

A Pombagira é uma das dez Entidades presentes no Oráculo das Antigas, o sistema autoral que criei a partir de décadas de tradição afro-brasileira, ao lado do Tarô, do Vititi Ngombo e de outros três sistemas oraculares.

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